quarta-feira, 6 de agosto de 2014

PROFISSIONAIS, OU NEM TANTO?



Ontem, na gravação do nosso terceiro podcast, foi levantada uma questão interessante e pertinente para os tempos atuais do futebol brasileiro: os jogadores do Botafogo que entraram com uma faixa mostrando os problemas financeiros enfrentados pelo clube teriam sido profissionais de fato, ou não?

Para quem não viu, segue a imagem e o link com a matéria (é clicar na imagem). 
                                                                                                                             (FOTO GAZETA PRESS)
http://espn.uol.com.br/noticia/428344_jogadores-do-botafogo-entram-em-campo-com-faixa-de-protesto-por-salarios-atrasados

No programa que virá ao ar ainda essa semana, a posição ficou um pouco dividida. Estou aqui escrevendo a minha opinião pessoal, que diverge das dos demais participantes do podcast e que, sem dúvida nenhuma, não faz parte do “editorial” do Podcast 2 Bolas.

Antes de tudo, fui procurar no famoso dicionário Aurélio qual a definição de profissional. O texto é o que segue:

“adj. Que se relaciona com determinada profissão: sindicato profissional; artista profissional. // Escola profissional, estabelecimento de ensino técnico que prepara para diversas profissões. /; s.m. e s.f. Pessoa que faz uma coisa por profissão (por opos. a amador).”

Não satisfeito, fui ao Wikcionário que me deu a seguinte resposta:
Podemos ver que um profissional é aquele que exerce uma atividade e a faz de forma remunerada. Em uma visão irônica, podíamos dizer então que os jogadores do Botafogo não seriam profissionais, pois os mesmos não recebem há muito tempo. Mas não faremos isso e não levaremos a discussão nesse post dessa forma.

Para mim, os jogadores do Botafogo foram sim profissionais ao entrar no campo sem receber por isso. Os jogadores de futebol atuam por meio de um contrato de trabalho, onde estão contidas as obrigações e deveres da parte empregadora e de seu empregado. Por mais que uma das partes não esteja cumprindo o determinado no papel, a outra parte não se desobriga do que foi firmado ali. É provável que ao optarem por não entrar em campo os jogadores estariam aptos a sofrer sanções e punições por parte do empregador (coisa que, no caso do Botafogo, duvido muito que aconteceria, pois a diretoria não tem tanto crédito assim para cobrar algo dos atletas).

Ontem tivemos comentários do tipo “Se não me pagassem todo esse tempo, eu não trabalharia”. OK. É um ponto muito válido e verdadeiro. Entretanto, esse pensamento é aplicável para quase todos os outros mercados. Não o do futebol, que é um mundo à parte. De nada adiantava aos jogadores se negarem a entrar em campo. O time perderia os pontos da partida, e em caso de recorrência fatalmente seria rebaixado. Os jogadores ficariam com essa marca no currículo e atrasaria a carreira deles.

Não vejo isso como uma atitude extremamente mercenária (até porque os jogadores do Botafogo não estão recebendo). Vejo como um pensamento no próximo passo da carreira, pois com certeza ao final de 2014 acontecerá uma debandada de jogadores do clube e os mesmos precisam se reposicionar no mercado. Uma atitude de não entrar em campo talvez os prejudicasse. Além disso, o fato de muitos já terem completados os 7 jogos no campeonato e estarem impedidos de uma transferência para clubes da Série A deve ter tido alguma influência, especialmente para um possível desligamento dos jogadores do clube, uma vez que lei permite que após 3 meses sem pagamento, o jogador pode ficar livre das suas obrigações para com o clube. O zagueiro Bolívar comentou essa questão nessa entrevista aqui.

Ser profissional envolve, também, preservar a sua imagem de trabalhador, de cumpridor de suas obrigações... e a imagem é um elemento ainda mais forte no mundo do futebol do que em outros mercados, porque os jogadores (pelo menos dos clubes das primeiras divisões) vivem super expostos - e inclusive negociam e recebem por sua imagem. Acho que esse é mais um ponto que interfere nessa questão, combinado principalmente com a impossibilidade de transferência citada acima.
Se a situação não melhorar, penso que os jogadores irão fazer como os seus colegas do Racing Santander da Espanha, que em janeiro desse ano entraram em campo, mas se recusaram a jogar, em protesto pelos salários atrasados, conforme mostra o vídeo abaixo, do canal ESPN Brasil.


Em resumo: vejo os jogadores, nesse caso, como profissionais sim.

Entretanto, ainda essa semana, ampliarei o debate sobre o profissionalismo dos jogadores brasileiros, agora sobre outra ótica.

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