Nada é tão ruim, que não possa piorar.
Essa frase sintetiza o momento do Botafogo.
O clube passa por sérias restrições financeiras, com verbas
bloqueadas, atrasos de salários e uma campanha fraca no Brasileirão, onde irá
brigar contra o rebaixamento. As insatisfações do elenco de jogadores são
colocadas via imprensa todos os dias. Os líderes dos atletas, como Bolívar e
Jefferson, já vieram a público para cobrar a diretoria algumas vezes. Em outros
momentos, o time já aboliu a concentração e também cancelou treinos, para não
aumentar o mal-estar entre os profissionais do clube.
Ontem, começou o que já era esperado: a debandada de
jogadores do clube.
O primeiro a conseguir a liberação pela falta de pagamentos
dos salários foi o lateral direito Lucas. Na matéria publicada pela ESPN
(clique aqui) é comentado que desde a sua contratação, em 2011, somente dois
dos quarenta meses de FGTS do atleta foram depositados. Uma situação lamentável
num futebol em que a circulação de dinheiro aumenta anualmente.
Mas esse post não é pra falar especificamente do caso do
Botafogo.
É para uma reflexão sobre as administrações dos clubes de
futebol.
Antes, entretanto, de entrar no assunto, é necessário voltar
um pouco no tempo.
Os clubes sempre se caracterizaram por uma gestão amadora.
Seus presidentes e vice-presidentes eram, na maioria das vezes, pessoas
bem-sucedidas profissionalmente que se propunham a participar da administração
do patrimônio do clube de forma altruísta (isso inicialmente, hoje já não se
sabe o motivo para o engajamento político da maioria das pessoas nos clubes).
Como a gestão é amadora, a preocupação com o resultado final
(déficit ou superávit, porque falamos de clubes e não de empresa, o que já é
outro grande erro dos nossos times no Brasil) é também muito superficial. Os
dirigentes gastam muito esperando retornos impossíveis de serem alcançados no
curto prazo. Isso traz consigo passivos onerosos aos cofres do clube. E por que
curto prazo? Porque os mandatos de presidente, em sua maioria, são de dois
anos. Aí o cidadão gasta muito pra tentar se reeleger e continuar no poder. E
se perde, para ele não tem tanto problema, pois a “bomba” vai estourar no
próximo presidente.
E isso é cultural. Já está enraizado no DNA da “cartolagem”
do futebol.
O motivo?
O futebol é um mundo à parte do que acontece na sociedade.
No mercado do futebol é possível gastar, gastar e gastar
mais um pouquinho, não pagar por isso e nada acontece. Os clubes estão acostumados
pelo mau exemplo. Eles não pagam impostos, não pagam obrigações trabalhistas e
seguem em atividade.
Não consigo pensar em um ramo de atividade em que uma
empresa conseguiria passar anos e anos operando no negativo, contraindo
dívidas, não pagando impostos, não pagando seus trabalhadores e continuaria
tudo certo, funcionando. Aí, quando a água bate no pescoço e a situação fica
difícil, e correm na porta do Governo. Pedem que haja uma renegociação das suas
dívidas. Alguns pedem até anistia e ameaçam abandonar o campeonato
(curiosamente, foi o próprio Botafogo quem fez isso).
E tudo isso porque é proibido punir o futebol.
Não se mexe com a alegria do povo.
Imaginem só fechar um Flamengo, um Grêmio ou Internacional.
Não pode.
Em um mundo assim, é difícil acreditar em projetos que falem
em profissionalização, em gestão responsável. Isso não existe. Pelo menos não
agora. Ainda há tempo de mudar isso.
A renovação que todos pediram após o vexame da copa não é de
jogadores. A renovação começa na gestão, nos gabinetes, e aí sim vai para os
jogadores. Exigir que um clube honre seus débitos, pague seus jogadores,
controle seu passivo de forma ordenada, invista na base (não só captando
atletas, mas formando cidadãos).
Enquanto nos preocuparmos só com que jogadores vestem a
camisa da Seleção, e deixar todo o resto pra trás, o futebol brasileiro vai
morrendo aos poucos.
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